Entrevista com Amílcar Piedade para a Navs GridIron

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Entrevista com Amílcar Piedade para a Navs GridIron

Desde pequenino que sonhou jogar Futebol Americano. Aos 28 anos tornou esse sonho realidade e hoje é um dos principais rostos da modalidade em Portugal. Na edição de Setembro da Navs GridIron falamos com Amílcar Piedade que nos conduziu numa viagem pelo passado, presente e futuro dos Lisboa Navigators.

Há vários anos que és um dos rostos principais do Futebol Americano em Portugal. Como é que a prática desta modalidade influenciou a tua vida comparativamente com outras modalidades que tenhas praticado?
Já pratiquei vários desportos, mas nunca com as responsabilidades que acabei por ter no Futebol Americano. Creio que a maior influência que teve na minha vida foi a de aprender a gerir os comportamentos de um grupo grande de pessoas e aprender a mestrar riscos calculados e equilibrar todos esses egos, em função a um objectivo comum e das minhas próprias vontades. Tem sido uma experiência social tanto quanto desportiva e de descoberta pessoal também. Para além disso, foi um desporto que esperei desde pequeno para poder praticar e treinar. A aventura começou já aos 28 anos, mas quando um sonho se torna realidade na nossa vida, esse acontecimento influencia-nos de muitas formas das quais nem nos damos conta.

Enquanto treinador principal dos Lisboa Navigators, o que esperas da próxima época? Que objectivos traçaste para a equipa?
O objectivo dos Navigators mantém-se o mesmo. Sermos melhores do que fomos em qualquer época anterior. Crescermos como equipa, se possível como indivíduos também e divertirmo-nos no processo. Queremos ensinar e treinar novos jogadores para serem o futuro da modalidade, passar o conhecimento técnico e táctico, mas também a abordagem correcta face ao desporto, à competição e particularmente ao Futebol Americano. Acredito que quando fazemos bem este trabalho, com a vontade de sermos os melhores, as vitórias são depois um subproduto.

Iniciaram a pré-epoca com um novo ciclo de captações. Até ao momento que balanço fazes desta iniciativa?
Ainda é cedo para fazer um balanço completo. Temos jogadores com potencial para vingarem neste desporto. Uns estão mais longe que outros, mas jogadores novos, como a própria modalidade, são projectos de longo prazo. É cada vez mais difícil alguém que é novo na modalidade conseguir-se integrar de imediato. Aquilo que nunca sabemos a esta altura é se todos esses irão ficar para esta época e durante quanto tempo, mas para já, estamos bastante satisfeitos.

Que características devem ter os jovens (e os menos jovens) que se apresentam nos vossos treinos?
Têm de ter vontade de praticar e aprender um desporto novo e serem pacientes com essa aprendizagem. Alguns chegam no primeiro dia à espera de jogarem como vêm na NFL ao fim do primeiro treino. Não é bem assim que acontece. É preciso trabalho para estar preparado fisicamente para este desporto e acima de tudo é preciso estudá-lo também, para entender bem o que se faz dentro do campo.

O que achas que faz com que os Navigators sejam uma equipa tão bem sucedida?
Agora podia contar uma daquelas histórias de fazer adormecer o Filipe Grangeiro… Penso que é a nossa capacidade de levarmos a sério os nossos objectivos e nos mantermos sempre focados, ao mesmo tempo que conseguimos ter um ambiente descontraído e familiar. Para além disso sempre fomos ambiciosos, sem nunca nos vangloriarmos sobre aquilo que não conseguimos, nem muito sobre o que conseguimos. Temos a filosofia de mostrar o que somos e deixar os outros falar sobre o que somos. Trabalhámos para ter uma atitude vencedora e hoje é simplesmente algo que está dentro de todos os Navigators.

Acreditas que o facto de mais nenhuma equipa portuguesa ter sido campeã nacional retrata a evolução (ou falta dela) do Futebol Americano em Portugal?
Sim. Nem tudo pode ser bom trabalho dos Navigators. Não sei pormenores internos dos outros clubes e não vou falar sem conhecimento, mas a ideia que tenho é que antes de mais nada temos, a nível nacional, uma debilidade de abordagem ao desporto, à competição e ao futebol americano. Há ainda muita falta de conhecimento. E, ao mesmo tempo, há demasiada necessidade de protagonismo por parte de quem lidera os clubes.

Daqui a 10 anos como esperas que esteja o Futebol Americano em Portugal?
Espero que as equipas tenham melhores condições de treino. Mais apoios do estado, mais qualidade e, consequentemente mais público. Melhores treinadores e árbitros. Camadas jovens de Tackle Football. Será mais fácil à medida que a primeira geração se reforma e se mantém ligada ao desporto. Espero haver condições para jogar na Europa. Não apenas para participar, mas para querer ter sucesso. Gostaria também de ter a nossa selecção a portar-se bem num europeu ou mundial da modalidade.

Antes de terminarmos, o que significa para ti ter um espírito Navigator?
Não é comum, em qualquer desporto, um grupo manter-se unido estes anos todos. Muitos já saíram, ou entraram mais tarde, outros ausentaram-se e voltaram. Não tarda estamos a fazer isto há uma década. Isto requer, acima de tudo, altruísmo. Um verdadeiro respeito, uma verdadeira aceitação dos outros elementos dos grupo, das regras acordadas. Uma perspectiva holística, em que cada um entende que juntos formamos algo maior. Compreender que apesar de ter de haver hierarquias, um Navigator não é maior que o outro. E, acima de tudo, esforçarmo-nos para investirmos o nosso tempo e o dos outros à nossa volta e não gastá-lo. Esforçarmo-nos ainda mais para fazer o que dizemos e não dizer o que não estamos preparados para fazer. Não ser perfeito, mas trabalhar para ser excelente. E executar isso tudo, seja a treinar, a jogar, ou a beber cervejas.


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